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02 de junho de 2003 |
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É comum encontrar nos suplementos literários declarações de editores e editoras reclamando do tamanho reduzido do público leitor no Brasil. Talvez guiados por um inconsciente "uma coisa leva à outra" os organizadores do simpático Flip (Festival Literário Internacional de Paraty) prepararam o evento - inevitável trocadilho - ao pé da letra. Com o "Literário" sendo a maioria dos convidados autores da Cia. das Letras, e o "Internacional" restrito a internacionais do Brasil e Inglaterra - e tendo ainda como cenário a minúscula Paraty - não poderia mesmo ter cara de "Festival". O segundo andar da Casa da Cultura foi um espaço para poucos, selecionados ou que chegaram primeiro. O chamado "público" se virou como pôde sob a lona armada a poucos metros, na praça da Matriz, onde Chico Buarque, o ministro Gilberto Gil e Adriana Calcanhoto tocaram, cantaram e dançaram na abertura do Flip, na quinta-feira 31 de julho. Na lona, os assentos eram folhas de jornal, cadeiras de praia ou emprestadas do bar mais próximo, colchonetes, ou simplesmente o barro marron do chão da praça. Quanto custa providenciar cadeiras para quem não pôde subir ao segundo andar do casarão? Sentados, de pé, ou deitados, a grande maioria das pessoas que foi a Paraty viu e ouviu ali, debaixo da lona, na noite de sexta-feira, a primeira grande atração literária do Flip, o bom e velho historiador marxista Eric Hobsbawm. No dia seguinte, Zuenir Ventura, apresentado como "aquele que todos os estudantes de jornalismo chamam de mestre Zu", divertiu a platéia do telão ao contar o episódio da moça que o abordou e disse: "Tenho todos os seus livros, Saramago". Zuenir brincou dizendo que não era Saramago, mas sim o pai de Dráuzio Varella, médico-escritor convidado, presente na platéia (da casa da Cultura). À noite o aguardado painel com Luis Fernando Verissimo, Ruy Castro e Millôr Fernandes não teve a presença do gaúcho. Verissimo precisou deixar Paraty mais cedo devido a problemas pessoais, o que decepcionou o público mas não impediu que grande parte dele considerasse o encontro de Millôr e Ruy Castro o melhor momento do Flip. Antes de ir embora, Verissimo deixou uma crônica que foi lida e aplaudida. Ruy Castro o definiu: "gênio". Millôr também foi aplaudido ao divagar sobre a respiração: "Eu fico vendo as pessoas ali, andando em Ipanema, respirando e respirando... Eu me pergunto: Pra quê? Pra quê? Só pode ser pra continuar respirando...". Interação entre o público da lona e os autores convidados só mesmo nas ruas, bares e na porta do hotel. Interação restrita a pedidos de autógrafo ou uma pose para a foto. Depois das palestras e leituras na Casa da Cultura, os autores rumavam direto para a única livraria da cidade, onde participavam de sessões de assinaturas e dedicatórias dos livros que eram empilhados, vendidos e empilhados novamente na boca do caixa. Mas quem brilhou foi mesmo Hobsbawm. Nas ruas era fácil identificar a preferência pelo historiador inglês. Seus admiradores, indo e vindo com "A Era dos Extremos" ou "Tempos Interessantes" embaixo do braço, corriam atrás daquilo que melhor podiam fazer em Paraty: conseguir um autógrafo. E não era raro encontrá-lo caminhando desengonçado, de tênis, pelas ruas inclinadas e pedregosas, características da cidade. Um encontro na porta do hotel entre Millôr, Zuenir Ventura e os três jovens escritores convidados para escrever um livro de contos sobre a cidade foi devidamente registrado pelas câmera da Globo, sob a orientação do repórter Ednei Silvestre, no início da manhã de sábado. Juntou gente. Uma senhora passou e disse: "Quatro dias assim, essa festa... E o resto?". E o resto? "O resto? O resto é esse salário que o ministro paga, eu sou professora..." Pano rápido! Para o próximo ano prometem resolver os problemas. Os problemas do Flip. Cadeiras na lona já seria bom. Escritores falando na própria lona é pedir demais?
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Uma experiência jornalística realizada por estudantes da Universidade Federal Fluminense. |
| Redação: Hugo R C Souza e Paula Cambraia Grassini |
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